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Aprendendo a Desaprender

Aprendendo a Desaprender
13/04/2022



Por Robert Juenemann em 13 de abril de 2022

 

A vida é um eterno aprendizado, pois todos os dias vivemos situações novas e a nossa bagagem de conhecimento vai aumentando na medida em que a idade aumenta. Há aprendizados do dia a dia, tais como aqueles que estudamos na escola, depois na universidade, há os fatos corriqueiros da vida com os quais temos de aprender a lidar e há também o crescimento decorrente da educação que recebemos em casa, dentre outros.

 

Portanto, com o passar do tempo, viramos um repositório de aprendizados, nem todos obviamente agradáveis, mas necessários, em um primeiro momento de vida, para que tenhamos bases e valores fortes, e que assim irão moldando quem somos. Há aprendizados alegres, como vivenciar e experimentar a solidariedade dos outros em relação a nós mesmos, há outros desagradáveis, como a elaboração do luto de uma pessoa querida.

 

Comigo, não foi diferente. Filho de auditor, certo dia, na pré-adolescência, pedi ao meu pai que me levasse ao escritório para ver como era o seu trabalho e o seu dia a dia. Assim, em um sábado chuvoso de inverno, fui brindado com a tarefa de fazer conciliação bancária no seu escritório. Nossa, que arrependimento. Que coisa mais repetitiva (chata e enfadonha). Mas essa atividade tinha de ser desempenhada por alguém. Aprendi que era tão importante quanto chato. Acho que este foi um dos motivos para ter fugido da contabilidade e auditoria, quando chegou a hora de optar o que fazer da vida. Além, claro, do fato de que meu pai havia concentrado em si toda a habilidade numérica de fazer cálculos de cabeça.

 

Acabei indo para o a faculdade de direito, na qual me sentia mais à vontade os temas eram mais instigantes (penso). Mas a vida me reservou uma surpresa: enquanto conselheiro de administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa - IBGC, recebi a indicação de um grande amigo, auditor e colega de conselho, para que disputasse a vaga de membro externo, ou seja, não contador, no Conselho Internacional de Práticas Éticas para a Profissão Contábil e Auditora – IESBA (International Ethics Standard Board for Accountants), com sede em Nova Iorque. Apesar de hesitante, resolvi enfrentar o escrutínio do processo seletivo, o que levou cerca de seis meses e junto a sete outros concorrentes.

 

Para a minha satisfação, no dia 22 de outubro de 2015, quando fiz 50 anos, recebi a informação de que havia sido o escolhido. 

 

Como membro externo, minha função era garantir que o interesse público estivesse presente, ou seja, que nas atividades de aperfeiçoamento do código de ética da profissão, não houvesse qualquer tipo de viés que pudesse macular as proposições efetuadas pelo conselho, do qual eu passei a fazer parte. E, claro, igualmente, propor refinamentos ao código de ética que seria aplicado em mais de uma centena de países.

 

Durante os cincos anos e inúmeras reuniões, à época ainda totalmente presenciais, com exceção do meu último ano de mandato, 2020, tive grandes aprendizados. Alguns deles, com os quais não concordei, qual seja o de “reservar” o conceito de “Ceticismo Profissional” (Professional Skepticism) apenas para os auditores. Ora, independentemente da atividade desenvolvida pelo contador ou auditor, faz-se necessário que tal conceito permeie o exercício da sua profissão, no meu ponto de vista. Obviamente fui voto vencido, mas deixei a minha marca e opinião sobre o assunto.

 

O que mais aprendi, na verdade, foi a importância da profissão contábil e de auditoria nas vidas de todos nós. Graças a contadores e auditores, as demonstrações financeiras e balanços, por exemplo, são documentos que contêm fé pública, o que, por exemplo, faz com que estratégicas de negócios sejam construídas e que acionistas decidam os seus investimentos de maneira mais informada.

 

Em razão disso, penso que essa função pública contida na profissão contábil e de auditoria poderia ser mais enfatizada no Brasil, pois como leigo, não vejo esse nobre aspecto sendo divulgado como o é em países do hemisfério norte. 

 

Assim, vi que era necessário desaprender algo, pois ao contrário do aprendizado, que se incorpora a quem somos, o desaprender exige um dar-se conta de que algo aprendido não mais representa o que alguém pensava e que, nessa proporção, exige mais consciência e energia para deixar de fazer parte de algo que alguém valorava como um de seus posicionamentos na vida.

 

Com isso, quero dizer que aquela atividade (enfadonha) de conciliação bancária era necessária, justamente para que essa nobre função pública dos contadores e auditores seja respaldada pela acurácia dos números e dos procedimentos internos, o que é fundamental para conferir a fé pública aos seus achados e opiniões.

 

E pelo mesmo processo de desaprender passei quando me dei conta, aos vinte e poucos anos, de que era homossexual. Crise total, horror total, tudo o que havia aprendido, ou quase, havia desmoronado. Era 1989, período no qual a AIDS matava o paciente com menos de seis meses diagnóstico. Os gays eram segregados e vistos como transmissores do “câncer gay”. Amigos afastaram-se, quando souberam. Era preciso esconder quem se era, suportar piadas de toda a ordem e ainda assim levara vida adiante, buscando ter o menor dano colateral possível. Com uma vida heterossexual até então, terminei um namoro de quatro anos, um ano antes, para tentar me entender e para respeitar uma namorada que amei muito, inclusive quando, à época, inexplicadamente, resolvi terminar o relacionamento.

 

Após muitos anos de sofrimento, com dificuldades de toda a ordem impostas pela sociedade, consegui vencer vários deles, e hoje sou uma pessoa feliz, penso ser um bom profissional e engajado em disseminar a importância de exercermos a tolerância e a inclusão de todos aqueles que são, ou parecem ser, diferentes de nós. A sociedade brasileira tolera um LGBTQIAP+ quando está envolvido com as artes, com a arquitetura, a decoração, a beleza e a moda. Entretanto, quando um LGBTQIAP+ tem uma profissão como médico, advogado, engenheiro, contador, auditor, é algo que a sociedade tem mais dificuldade em aceitar, e essa situação defendo que seja mudada o quanto antes. Mas, para isso, é preciso conquistar corações e mentes para que nos preocupemos com as pessoas e que exerçamos, sim, o desaprender. Sim, aquilo que aprendemos em casa, que a homossexualidade é algo anormal, “doença”, e que, portanto, os pertencentes a esse grupo devem ser afastados do nosso convívio. 

 

E aí que penso que os auditores têm a oportunidade de fazer a diferença. Como profissionais corretos, com conduta ilibada, além dos procedimentos internos e da correção dos números, cada vez mais há a oportunidade de também ser trazida à luz solar a forma como as pessoas são tratadas nas empresas e como tais situações podem ser aperfeiçoadas.

 

Para que isso ocorra, entretanto, é preciso que, novamente, haja uma desconstrução do aprendizado anterior, qual seja de que o “correto” é apenas a heterossexualidade, quando, sabe-se, há pelo menos 10% da população que se autodeclara como LGBTQIAP+. Ou seja, se eu estiver em uma reunião com cem pessoas, há potencialmente dez pessoas com orientação – e não “opção”, por favor – sexual LGBTQIAP+. Com base nesse percentual, afirmo com grande convicção de que esse número facilmente pode dobrar, levando em consideração pessoas que conheço, e que vocês também certamente conhecem, que o são, mas que não se autodeclaram. E, lembro, não preciso ser necessariamente LGBTQIAP+ para entender outro LGBTQIAP+. Talvez eu possa, sim, entendê-lo melhor, mas outros também podem, é só querer. 

 

Falo aqui de exercer o respeito. Exercer o respeito com os demais e exercer o autorrespeito, de se ser quem se é sem vergonha de que os outros saibam quem somos. Lamento, é um valor tão básico o respeito, mas tão pouco praticado. 

 

E penso, realmente, mais uma vez, que os contadores e auditores estão em condição ímpar de agir como transformadores da realidade social, pois é a própria sociedade (além, claro, da qualificação técnica) que confere a esses profissionais a importância de sua atuação no mundo corporativo, e com base em suas opiniões e recomendações, muito tem sido mudado com a sua influência. Com o crescimento de importância do ESG, e suas métricas, que logo serão mais aperfeiçoadas, falar e tratar de inclusão já é, e será, cada vez mais, fundamental.

 

E vocês, contadores e auditores LGBTQIAP+, orgulhem-se de quem são. Vocês são igualmente competentes, têm conhecimento, capacidade, honradez e senioridade para exercer as suas atividades. 

 

Que todos, juntos, desaprendamos conscientemente os preconceitos que aprendemos, e que consigamos ser mais respeitosos com todos. Inclusive conosco.

 

© 2022 Robert Juenemann. Usado com permissão. 

 

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